domingo, 25 de setembro de 2011

POEMA DA NECESSIDADE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

- Poema da necessidade (Drummond)

É preciso casar João,


é preciso suportar, Antônio,


é preciso odiar Melquíades


é preciso substituir nós todos.






É preciso salvar o país,


é preciso crer em Deus,


é preciso pagar as dívidas,


é preciso comprar um rádio,


é preciso esquecer tudo.






É preciso estudar volapuque,


é preciso estar sempre bêbado,


é preciso ler Baudelaire,


é preciso colher as flores


de que rezam velhos autores.






É preciso viver com os homens


é preciso não assassiná-los,


é preciso ter mãos pálidas


e anunciar o fim do mundo.






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NOVO SHOW DE ADRIANA CALCANHOTTO

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

EDUARDO GALEANO O DIREITO AO DELÍRIO

O Direito ao Delírio
Eduardo Galeano¹


Que tal começarmos a exercer
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?


No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.


Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.


Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.


A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.


A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.


A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.


E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.


¹Eduardo Hughes Galeano
* Montevidéu, Uruguai – 03 Setembro 1940 d.C.